Funcionamento neuropsicológico e risco de acidente de viação em condutores mais velhos

O atual cenário do envelhecimento demográfico ocasiona um contínuo e acentuado crescimento do número de condutores idosos nas estradas (Polders et al., 2015). A Organisation for Economic Co-operation and Development (OECD) estima que em 2030, um terço dos condutores tenha mais de 65 anos e que, em 2050, existam mais do triplo dos automobilistas octogenários registados atualmente (de la Maisonneuve & Martins, 2013).

A par do envelhecimento da população condutora, a mortalidade e morbilidade decorrentes dos acidentes de viação constituem um facto preocupante: em Portugal, o número de condutoras vítimas mortais com 75 ou mais anos de idade é um dos mais elevados, segundo o grupo etário (Autoridade Nacional de Segurança Rodoviária, 2017). A fragilidade física (como a diminuição da densidade óssea e o elevado risco de falência multiorgânica) e a gravidade dos ferimentos decorrentes dos acidentes, justificam o risco de mortalidade nos condutores mais velhos (Ikpeze et al., 2016).

Acidentes de viação mais comuns nos condutores idosos

Os estudos científicos apontam uma maior incidência de acidentes em situações de trânsito complexas, que abrangem uma diversidade de estímulos e múltiplas tarefas (nomeadamente atravessar cruzamentos e entroncamentos, executar mudanças de direção ou de via), ou que exigem resposta à sinalização rodoviária como sinais de cedência de passagem (Safety Observatory, 2017).

Por outras palavras, nestas situações de trânsito são necessários diversos recursos neurocognitivos como extrair informação relevante do campo visual, dividir a atenção entre estímulos concorrentes, antecipar, planear, tomar decisões e executar múltiplas tarefas, em intervalos de tempo muito reduzidos (Wolfe & Lehockey, 2016).

Condutores mais velhos: problemas de condução específicos

Enquanto que nos adultos jovens as atitudes e os comportamentos de risco constituem fatores significativos para os acidentes de viação, os idosos evidenciam problemas de condução específicos como: pesquisa visual menos rápida e efetiva, associada a movimentos oculares lentos e maiores períodos de fixação em pequenas áreas do campo visual (Dukic & Broberg, 2012); menor capacidade de avaliar corretamente a distância e a velocidade de outros veículos (Poulter & Wann, 2013); maior dificuldade em dividir a atenção entre estímulos e inibir distratores (Leversen et al., 2013); tempo de reação superior para iniciar e executar manobras (Yan et al., 2007); e maior frequência de acelerações não intencionais (Freund et al., 2008).headlamp-2940_640

Funcionamento neuropsicológico e aptidão para a condução

Estes exemplos traduzem que as alterações neuropsicológicas associadas ao avanço da idade e/ou a doenças médicas que acompanham o envelhecimento, podem ter um efeito potencialmente negativo no comportamento de condução automóvel e segurança (Ferreira, Simões & Firmino, 2016). Estas alterações cognitivas e comportamentais devem ser operacionalizadas com recurso a técnicas e instrumentos de avaliação psicológica, com vista a contribuir para uma maior fundamentação e rigor dos pareceres clínicos sobre a aptidão para a condução nas pessoas mais velhas (Ferreira & Simões, 2015).

Autora do artigo: Inês Saraiva Ferreira IMG_6362 - Cópia

 

 

Anúncios